Aprenda técnicas da meditação judaica
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Rico em preces e cânticos, o judaísmo funde o exercício devocional diário à prática meditativa, canal direto de comunhão com Deus e seus desígnios
Raphaela de Campos Mello
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Meditação judaica unes preces e cantos à prática meditativa
Meditar e orar são práticas irmãs dentro do judaísmo. Claro, não espere ver um judeu em posição de lótus ou coisa do tipo. No entanto, seja nas sinagogas, seja nos lares, a entrega às rezas e aos cânticos representa um compromisso diário e inquebrantável. É por meio da devoção que os filhos de Judá reafirmam a crença no Deus onipresente e se colocam receptivos aos seus planos. "Não precisamos de intermediários. Cada um tem sua maneira de orar, de se sentir conectado a Deus por meio das rezas, das músicas, dos cânticos. Esse alinhamento apazigua a alma", afirma Yael Steiner, diretora do Centro de Cultura Judaica, em São Paulo.
Mais que reavivar a fé judaica, a entonação de rezas, cânticos e preces musicais chamadas nigun ("melodia" em hebraico) – conjunto de sílabas desprovidas de sentido, mas reconhecidas como poderoso canal de expressão espiritual – induz, assim como os mantras, estados de consciência elevados. A repetição dos dizeres aliada ao alto nível de concentração explica o fenômeno. Logo, qualquer semelhança com as ferramentas meditativas orientais não é mera coincidência, segundo o ravi Aryeh Kaplan, autor de Meditação Judaica – Um Guia Prático (Ágora). "Existem consideráveis indícios de que os mestres místicos judeus conheceram e trocaram ideias com os mestres sufis [místicos ligados à tradição islâmica], além de terem conhecido as escolas da Índia", ele escreve. Os efeitos suscitados por essas vias "primas" também convergem. "A maioria das pessoas se perde no caos do dia a dia porque o ego dita as regras, gerando muitos temores. Ao orar, estabelecemos uma conexão que vem da alma e, portanto, não é mental. Para tanto, é preciso acreditar no invisível, nessa linha direta com Deus", diz Yael, que ainda salienta a importância de, nos momentos de introspecção, projetarem-se intenções verdadeiras, egressas da essência de cada um, enfocando a gratidão, sempre. "O judeu agradece, nunca pede", enfatiza. "Eu medito todas as manhãs e antes de dormir. Às vezes, paro 15 minutos à tarde, ouço música hebraica, que me faz relaxar, e renovo minha fé", conta.
Já no interior da cabala, corrente mística ligada à tradição do judaísmo que preserva ensinamentos espirituais milenares, a experiência meditativa – que, vale ressaltar, pode ser praticada por qualquer pessoa, convertida ou não – é vivenciada de múltiplas formas. "Temos meditações extraídas de textos antiquíssimos da cabala, datados de 4 mil anos, como também práticas que envolvem mantras, nomes dos anjos, vocalizações em hebraico, meditação em silêncio e com visualizações. Todos eles meios de alterar a consciência", afirma Ian Mecler, fundador do Portal da Cabala e autor de seis livros sobre o tema, entre eles A Cabala e a Arte de Ser Feliz (Record). O objetivo crucial, na visão do estudioso, é abrir as portas do coração, único caminho para alcançar mudanças e curas. "O despertar para a espiritualidade vem do estado de não mente, o que se consegue por meio da prática constante da meditação", ressalta Mecler. Segundo ele, depois de aprender a meditar ancorado em algum estímulo, o praticante atinge um segundo patamar, que é a meditação contínua, de olhos abertos, onde quer que esteja. No aeroporto, por exemplo. Em vez de se perturbar com atrasos e cancelamentos de voos, o estudioso recomenda preencher esse tempo ocioso com a escuta interna. O mesmo serve para filas, congestionamentos, esperas de toda sorte. Entre brigar com as circunstâncias e meditar, ele fica com a segunda opção. "A vida tem momentos melhores e piores, mais motivadores ou mais desafiadores. O trabalho espiritual leva a esse entendimento, ao passo que o treino da meditação instaura, com o tempo, o estado de espírito meditativo, perene, fonte de paz interior, a despeito do que esteja acontecendo ao redor", ele assegura.
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